El Niño em 2026: o oceano esquenta, e a mudança chega à nossa porta

 Chuva demais em alguns lugares, água de menos em outros: entenda por que o aquecimento do Pacífico merece atenção neste ano.

Atualizado em 24 de setembro de 2026.

O oceano e a atmosfera estão conectados.



Imagine esperar pela chuva para plantar e ver o solo continuar seco. Em outra região, a preocupação é oposta: o rio sobe, a chuva persiste e a colheita precisa esperar. Dois cenários diferentes podem estar ligados a uma mesma mudança, iniciada a milhares de quilômetros de distância, no oceano Pacífico.

Em 2026, essa conexão ganhou força. O El Niño está estabelecido, e a Organização Meteorológica Mundial (OMM) prevê que ele se intensifique até atingir uma intensidade muito forte, com pico próximo ao fim do ano. A previsão divulgada em setembro aponta uma probabilidade próxima de 100% de persistência até fevereiro de 2027. Isso amplia a preocupação com calor extremo, secas e inundações — embora os efeitos variem conforme a região. Fonte: OMM.

O que acontece no mar pode mudar a vida em terra.

O El Niño envolve um aquecimento persistente das águas superficiais do Pacífico equatorial central e oriental, acompanhado de mudanças na atmosfera. Os ventos que normalmente empurram a água quente para oeste enfraquecem, e a distribuição do calor no oceano se modifica.

Com isso, também mudam as áreas onde o ar sobe, as nuvens se formam e a chuva cai. Essa reorganização influencia a circulação atmosférica e alcança lugares muito distantes do Pacífico. É por isso que um fenômeno oceânico pode interferir no calendário agrícola e nas chuvas de diferentes continentes. Fonte: NOAA.

Para o Brasil, as perspectivas do trimestre de setembro a novembro de 2026 mostram um país de contrastes:

  • Sul: maior probabilidade de chuvas acima da média, com atenção para cheias e inundações.

  • Norte e Nordeste: previsão de chuvas abaixo da média, que pode agravar a falta de água.

  • Centro-Oeste e Sudeste: cenário variável, com déficit de chuva em algumas áreas e possibilidade de volumes acima da média em partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul.

  • Grande parte do país: temperaturas acima da média, acrescentando pressão às regiões já afetadas pela seca.

Essas tendências aparecem no terceiro boletim do Painel El Niño 2026–2027. São previsões para o conjunto do trimestre; não determinam o tempo de cada cidade ou de cada dia. Fonte: Cemaden.

Falta e excesso de chuva representam riscos distintos. Ilustração conceitual criada com IA; não retrata um desastre específico.

As consequências vão além da previsão do tempo.

Na agricultura, tanto a falta quanto o excesso de água podem comprometer a produção. A seca prejudica lavouras e pastagens; chuvas intensas podem inundar áreas cultivadas e dificultar o trabalho no campo. Quando esses problemas atingem regiões produtoras, a segurança alimentar também entra em jogo. A FAO acompanha os riscos associados ao El Niño para antecipar medidas de proteção à produção e às populações vulneráveis. Fonte: FAO.

No Brasil, o cenário exige atenção especial à água e ao fogo. O boletim do Cemaden registra que, em julho, 157 municípios estavam em situação de seca severa. Esse dado descreve uma condição observada, sem provar que o El Niño tenha sido sua única causa. Para os meses seguintes, calor e redução das chuvas podem diminuir a disponibilidade de água e favorecer a propagação de incêndios. Fonte: Cemaden.

Há ainda uma distinção essencial: um El Niño muito forte não produz consequências idênticas em todos os lugares. As condições de outros oceanos também podem reforçar ou modificar seus efeitos. Portanto, intensidade elevada é motivo para preparação, mas não permite afirmar antecipadamente que determinada cidade sofrerá uma enchente ou uma seca histórica. Fonte: OMM.

O ano de 2026 ainda está em andamento. O balanço completo de seus impactos dependerá das observações dos próximos meses. Até lá, acompanhar os avisos dos órgãos meteorológicos e da Defesa Civil ajuda a transformar informação em decisões oportunas.

O Pacífico pode parecer distante. Mas entender seus sinais é uma forma de cuidar do que está perto: a água disponível, os alimentos que produzimos e os lugares onde vivemos.